segunda-feira, 29 de maio de 2017

Quem quer reviver a sua juventude não constrói nada de novo. E fica velho...

Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”. (Heráclito)

Minha adolescência no Colégio São Vicente de Paulo foi inesquecível. Eram os anos 70, de ditadura e muita repressão do lado de fora, mas de intensa atividade cultural no colégio. Tínhamos um grêmio, assistíamos filmes proibidos, discutíamos como construir a democracia no Brasil, namorávamos, nos divertíamos. Foram anos dourados... Já adulto, meu sonho era voltar ao colégio para dar aulas lá. Fui conversar com o Pe. Almeida, que era o diretor quando eu fui estudante. Falei do meu sonho e ele, sabiamente, me disse: “Marcos, o seu São Vicente não existe mais. E você querer reencontrar você e seus colegas nos alunos atuais só vai aumentar a sua nostalgia e fazer de você um mau professor. Não se vive duas vezes. Viva o seu tempo”...

Ontem teve uma manifestação em Copacabana com a presença de Caetano, Mílton e artistas globais. Vendo a linha do tempo de alguns amigos que lá estiveram, identifiquei claramente o mesmo sentimento: todos disseram que ontem reviveram “seus melhores anos de juventude”. E todos têm o mesmo desejo: reviver a manifestação dos 100 mil e “barrar a reformas”, “derrubar o governo golpista”, “fortalecer os sindicatos”, “diretas já” ... Em resumo: querem voltar para a sua juventude perdida nos anos 60, 70, 80...

O Pe Almeida tinha razão. Ser jovem não é tentar viver hoje as mesmas experiências de quando você tinha 18 anos. Você não é mais o mesmo, o contexto e as pessoas à sua volta também não. Ser jovem é viver intensamente o SEU TEMPO.

A disputa hoje, no Brasil, é entre aqueles que querem a manutenção de um status quo e/ou a volta ao passado e aqueles que querem colocar o Brasil no século XXI.

As manifestações de junho de 2013, pelo impeachment e em defesa da Lava Jato e a própria operação Lava Jato deixaram muito claro que este modelo de República é insustentável. Está velho e sem condições de continuar. Temer, lula, Dilma, Aécio, Cunha, Renan, Sarney são só o passado tentando impedir o novo de eclodir.

E aqueles que já foram porta vozes da esperança e de futuro ficaram velhos. Não pela idade, mas pelas ideias. Hoje eles se limitam a cultivar a volta ao passado, aos que nos colocaram nesta situação. Como nos lembra o Claudio Manoel Dos Santosl, “Foram anos de investigação do maior escândalo de corrupção da história. Estatais implodidas, ladroagem hiperbólica, a maior massa de desempregados jamais vista, centenas de milhares de falências e, durante esse tempo todo, durante tudo isso, não ouvimos um trinado do Caetano, um corinho da ala PSOL do PROJAC, nenhuma mobilização dessa galera, nada de nada...”


Esta galera hoje virou saudosista. Eles e Temer querem barrar a Lava Jato para ela não pegar o seu líder messiânico. Estão prisioneiros da sua juventude perdida. Se recusam a viver o nosso tempo.

Uma pena. A história não costuma perdoar quem se aferra ao passado.

“A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue”...

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O presente está prenhe de futuro

"Mas é você que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem"...
(Belchior)

"Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais..."
(Alceu Valença)

Quando tinha uns quinze anos, cheguei em casa joguei meu tênis no armário, bati a porta e o armário desabou estrondosamente! Todos correram para ver o que tinha acontecido e tudo o que consegui balbuciar foi: "não fui eu".

Minha mãe foi olhar e me perguntou se eu não tinha notado umas "poeirinhas" na roupa. Depois que ela falou, de fato, me lembrei de ter visto várias vezes minha roupa desta forma. "É cupim", ela esclareceu. Nos registros históricos a data em que o armário desabou foi esta, mas os cupins já estavam atuando há meses. Eu é que não tinha sido capaz de perceber os sinais...

O Brasil e o mundo estão mudando e os sinais são, a cada dia, mais visíveis. Empresas que não existiam no século passado, como Google, Facebook, Youtube, Amazon já se tornaram as empresas mais ricas e poderosas do século XXI, deixando as 7 grandes do petróleo ou da indústria automotiva para trás. A maior enciclopédia do mundo faliu e todos nós usamos a Wikipedia, que é feita de forma colaborativa. Desta mesma forma nós estamos financiando projetos e iniciativas culturais (crowdfunding) e fizemos o sequenciamento do genoma humano, que está revolucionando a medicina.
Milhões foram às ruas em junho de 2013 sem que ninguém soubesse de onde veio esta gente toda. E as manifestações foram sem palanques, partidos ou gurus. Uma mobilização feita de baixo para cima que deixou claro que sindicatos e partidos de ex-querda não têm mais o monopólio da mobilização popular. Muito pelo contrário...

Os sinais são evidentes, mas muita gente ainda prefere olhar para trás. Sonham com a volta aos séculos XIX e XX, ao mundo industrial, ao conflito entre operários e burguesia, esquecendo-se que os operários estão acabando e a burguesia agora é outra. Outros só conseguem ver o que está desmoronando. Só conseguem ver que o armário caiu...

Poucos estão prestando atenção ao novo que está surgindo. Os cupins estão corroendo as estruturas seculares que criamos, mas são cupins de um novo tipo: eles também estão construindo a nova estrutura que vai nos levar ao século XXI: as redes complexas.

Empresas, partidos, governos.... muitos armários que pareciam fortes e indestrutíveis ainda vão cair. Precisamos estar atentos ao novo que surge.

Além de ser o título da uma canção do Alceu Valença, a Anunciação é a celebração cristã do anúncio pelo Arcanjo Gabriel para a Virgem Maria de que ela seria a mãe de Jesus Cristo. Os sinais estão aí:

O nosso presente está prenhe de futuro...

terça-feira, 28 de março de 2017

Há uma nova cidadania em gestação...

"Existe uma demanda crescente por maior eficácia aliada à ética e parte da elite política brasileira ainda não entendeu isto. Se assemelham às elites francesa, em 1789, e russa, em 1917. A nossa sociedade corre o risco de uma ruptura. Mas eles não percebem o vulcão aos seus pés.." (Leandro Karnal)


As estruturas sociais que foram construídas nos séculos XIX e XX para organizar a sociedade (parlamentos, sindicatos, partidos), que foram fundamentais para fazer avançar a democracia, não representam mais o povo. Os cidadãos estão aprendendo que podem se organizar e mobilizar por fora destas estruturas. As manifestações de junho de 2013 e pelo impeachment são os sinais mais evidentes desta verdadeira revolução em curso no Brasil e no mundo. A sociedade clama por mais eficácia associada à ética e está aprendendo a lutar por isto de forma autônoma e independente.

Mas uma boa parte da elite política e intelectual brasileira não percebeu isto ainda. Continuam pensando, agindo e querendo viver como se estivéssemos em pleno século XX. A filósofa Marilena Chaui chegou a afirmar que estas manifestações organizadas à margem dos sindicatos e partidos políticos são "uma ameaça à democracia"...



video

Eu penso exatamente o contrário. Esta nova cidadania em gestação tem um pensamento mais sistêmico e complexo, não segue mais a cartilha cartesiana e os modelos mentais do século XX, não tem heróis e não acredita mais em nenhum político ou líder carismático e populista. Está, para desespero dos que pretendem tutelá-la, aprendendo a pensar e agir segundo sua própria cabeça. Nada mais revolucionário do que isso. 

 Neste vídeo, Leandro Karnal mostra como, ao contrário do que nossas elites tentam nos convencer, o Brasil pode dar certo. Temos todas as condições para isto. Só nos falta confiar mais em nós mesmos. Como num parto, muita gente pode ajudar (médicos, parteiras, instrumentistas), mas é a vontade de viver que faz o parto acontecer. 

Há uma nova cidadania em gestação. Ninguém poderá detê-la.

Vamos nessa?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Quem somos?

“Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai, mas eu preciso ser muitos”. 
(Manoel de Barros)


A ansiedade já foi considerada o mal do século. Todos nós, de alguma forma e em algum momento já viveu momentos de ansiedade e/ou angústia. Mesmo em momentos da vida em que estamos bem, aparece um incômodo/apreensão sem pedir licença... E é inevitável a gente pensar: se estou bem e feliz, porque esta angústia? 

Algumas coisas me vieram a cabeça. Acho que uma boa parte da nossa angústia vem de ver a "felicidade" dos outros. Pode parecer besteira ou óbvio, mas este festival de gente sorrindo, curtindo a vida (em restaurantes, praias, viagens e fotos), no Facebook e no Instagram, nos faz imaginar que estão todos numa grande festa para a qual não fomos convidados. Como diria meu avô, a grama (e a vida) do vizinho parece sempre mais verde (e feliz)...

Na mesma linha, quando o casamento acaba ou o trabalho não acontece/não dá certo, sempre ficamos nos vendo como perdedores, derrotados. Está todo mundo dando certo, está todo mundo feliz e só nós que não. Mas como diriam os jovens, "só que não"... Não há festa em lugar nenhum! Uma vez um grande amigo, que foi padre, me disse que o que mais ele ouvia nas confissões era o depoimento de pessoas desesperadas, angustiadas, tristes. E que o impressionava vê-las do lado de fora do confessionário sorridentes e "felizes", como se não estivessem vivendo um drama! Os consultórios dos psicanalistas estão cheios, o consumo de
ansiolíticos não para de bater recordes a cada ano. Na verdade as pessoas estão hesitantes, carentes, com o corpo dolorido e torto, insatisfeitas, perdidas... Mas não podem admitir e, pior, não têm com quem falar a respeito.

Antigamente tínhamos a religião, o partido, ou comportamentos culturalmente aceitos para nos apegar. Sabíamos como ser um marido, uma mulher, um filho. A religião ou o partido diziam como devíamos pensar e nos comportar. Os manuais de administração nos ensinavam a ser executivos e chefes eficazes e eficientes. Ou podíamos (ainda podemos) transferir esta responsabilidade da nossa felicidade para outros (psicólogos, psiquiatras, astrólogos...).
Hoje, paradoxalmente, temos menos refúgios. Mesmo com as redes sociais, não temos um porto seguro onde aportar. As relações nas redes são superficiais, falamos frases curtas, rápidas. Não temos tempo para nos aprofundar. E relações profundas se constroem com sentimentos, com vivência, com experiência. E isto demanda tempo e atenção. O segredo para mim é este: estar atento. Atento às relações afetivas que realmente importam, aos problemas que realmente são críticos. Estar atento também para não sufocar.

"Quero ser teu amigo. Nem demais e nem de menos. Nem tão longe e nem tão perto. Na medida mais precisa que eu possa. Amar-te sem medida e ficar na tua vida da maneira mais discreta que eu souber.Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar. Sem forçar tua vontade. Sem falar, quando for hora de calar. E sem calar, quando for hora de falar. Nem ausente, nem presente por demais. Simplesmente, calmamente, ser-te paz. É bonito ser amigo, mas confesso: é tão difícil aprender! E por isso eu te suplico paciência. Vou encher este teu rosto de lembranças. Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias…" (Fernando Pessoa)

Como disse o Fernando Pessoa, na poesia acima, saber a hora de estar mais perto ou se afastar não é fácil, até porque esta busca do ponto certo é eterna. Ele é móvel... As pessoa mudam e o que era o ideal ontem pode não ser hoje. E o que é bom para mim pode não ser para o outro. Cada um deve buscar o seu porto, o seu ponto de equilíbrio, sabendo que ele é dinâmico, mutante.

Li uma vez uma entrevista do Caetano Veloso onde ele falava que que sentia amparado e desafiado pelo cenógrafo Hélio Eichbauer, e fiquei pensando: amar não é isto? Alguém que te ampara E desafia? Que é teu porto seguro E o local de onde você parte para navegar por mares nunca dantes navegados?
Nosso (louco) mundo cartesiano nos faz separar estas coisas: mulheres e homens procuram uma pessoa para ampará-los e outra para desafiá-los; Uma pessoa para se apaixonar, outra para ter tesão, outra para ser "uma companhia"... Por quê?
Somos seres complexos e esta tentativa de nos reduzir a um determinado tipo de pessoa certamente contribui para nossa angústia.  Gosto muito da minha filha, mas tem horas que quero ficar sozinho. Isto não me torna um pai desnaturado. Gosto de ler, de ir ao cinema, mas tem horas que quero ver futebol e ficar jogando no computador. E de ir ao Maracanã torcer e gritar pelo Fluminense. Existe algum tipo de lei que obrigue um "intelectual" a ser de um determinado jeito? Tenho uma amiga que estava fazendo análise para ajudá-la a resolver se ela era jornalista ou música. Falei pra ela: "na dúvida entre comunicação e música, porque você não fica com os dois?" Quem decretou que um cara em dúvida sobre sua profissão é um cara "não resolvido"?

Os padrões e regras pré estabelecidas que determinavam como um homem ou uma mulher deviam se comportar estão se diluindo, desaparecendo, e muita gente acha que isto é uma fonte de nossas angústias. Talvez, mas tentar seguir estes padrões só fez aumentar nossa angústia, porque sabemos que somos muitos... Estamos saindo de um mundo que nos obrigava a seguir os padrões, a ser uma pessoa de determinado tipo quando, no fundo, somos muitos... 


A boa notícia é que não precisamos ficar angustiados com isto. Não precisamos ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que é músico, ou jornalista. Sermos muitos não tem nada de errado. 

Basta sermos verdadeiros.




terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O desconhecido como espaço de esperança. Feliz mundo novo!



"Ontem choveu no futuro" 
(O livro das ignorãças - Manoel de Barros)

"A dúvida é saudável. A certeza é enlouquecedora"... 
(Luiz Alberto Py, psiquiatra e psicanalista)



Por uma destas coincidências da vida, moro numa rua que vai dar no início da rua Mundo Novo. Costumo correr e caminhar por ali porque tem caminhos com muita sombra e um visual inusitado do Rio, em particular da Baía de Guanabara, do Pão de Açúcar e do Cristo. 



Foi num destes momentos que me dei conta que o ano novo que começa está prenhe de um mundo novo. Começamos, mesmo que ainda não tenhamos plena consciência disto, a perceber as coisas que acontecem na nossa vida de uma forma não linear, mais complexa, mais sistêmica. Mesmo a linearidade do discurso (sujeito-verbo-predicado) já não está dando conta da nossa necessidade de expressão. Nos livros, filmes, peças de teatro e mesmo na comunicação via mídias sociais procuramos novas formas de contar o que vimos e sentimos. 
Tínhamos a pretensão, ao entrar na escola, de aprender de cor todas as informações relevantes para nossa vida profissional, e hoje, cada vez mais nos damos conta que todo conhecimento é efêmero, incompleto... Este novo mundo nos faz ter a sensação que tudo é provisório: o trabalho (a rotatividade aumentou), onde moramos (as pessoas estão se deslocando mais, inclusive para outros países), as relações (cada vez mais pessoas se casam mais de uma vez). Se compararmos qualquer aspecto da nossa vida de hoje com cinquenta anos atrás (quando nasci), fica evidente que a provisoriedade da vida só fez aumentar. E isto, obviamente, nos assusta. O que é provisório nos faz perder o chão, as certezas. E nos faz ter medo.
Mas se pensarmos bem, a vida foi sempre assim. A mudança sempre fez parte da vida humana. Não estávamos aqui alguns milhões de anos atrás. Só os dinossauros... Só que ela não ocorria na velocidade que está ocorrendo. Em nossa existência, estamos vivendo uma diversidade de coisas que antes só eram vividas por várias gerações. Esta época de mudanças frequentes e contínuas nos fez perder a noção de que a instabilidade e a complexidade são características essenciais da vida. São intrínsecas à ela. A escola e os modelos mentais com os quais aprendemos a interagir no mundo é que nos fizeram colocar tudo em caixinhas isoladas, tentando reduzir a complexidade e mascarando a instabilidade inerente à vida. 
É preciso afirmar a instabilidade da vida, sua provisoriedade. A vida não é estável nem eterna! Temos uma visão negativa destas coisas e das incertezas e dúvidas que elas nos trazem, mas não devíamos esquecer que são as certezas absolutas que deformam e desfiguram a realidade. São elas que nos matam e nos fazem matar! Hitler e Stalin estavam absolutamente seguros do que estavam fazendo. Não tinham dúvidas...
"Ocupo muito de mim com o meu desconhecer" (Manuel de Barros)
A certeza é o contrário da vida, porque a dúvida não é só ficar indeciso. É supor, conjecturar, abrir e buscar novos caminhos. Neste sentido é ela que nos move, que nos faz querer prosseguir. Podemos ter certeza do amor da(o) mulher (homem) amada(o), mas tod@s sabemos que nada é eterno. Que o amor, como a vida, não é estável nem eterno. A dúvida é saudável! Não a dúvida que corrói, que destrói ou paralisa. Mas aquela que instiga, que nos faz querer continuar a descobrir o outro. Ela é um antídoto para nossa onipotência, e como diria alguém (que não anotei no meu caderninho...), nos liberta das algemas da convicção! 
Podemos ver o desconhecido como escuridão, uma coisa a ser evitada. E que nos dá medo. A maioria de nós procura evitar este mundo novo, desconhecido. Na vida profissional ou afetiva. Prefiro ver o desconhecido como um espaço de esperança. Claro que ninguém dá um passo no escuro sem um bom motivo. E que o medo é parte deste processo. Como a instabilidade e a provisoriedade da vida. Como a alegria ou o sofrimento. Ninguém gosta de sentir dor, por exemplo, mas tenho uma amiga que teve um filho que nasceu com uma doença que fazia com que ele não sentisse dor nenhuma. E esta era a maior ameaça à sua vida. Como não sentia dor podia morrer queimado ou com um osso quebrado. Muito louco isto, não? Quem não sente dor está muito mais ameaçado de morrer...
Claro que precisamos de uma bússola, de referências que nos ajudem a navegar nestes mares revoltos e provisórios da vida. E de um porto onde possamos encontrar um pouco de paz e tranquilidade...
Mas cobrar da vida uma regularidade e estabilidade que encontramos numa fábrica ou numa missa é o caminho seguro para a angústia, frustração e depressão. Porque estaremos no caminho oposto ao da vida. Quem vai sobreviver neste mundo novo são as pessoas abertas às transformações, capazes de se adaptarem às mudanças.
Sempre foi assim, não é?

Todos os dias chove no futuro... Então, coloquemos nossos sensores, nossa sensibilidade e nossa razão em ação para aproveitarmos este admirável mundo novo. Tem um mundo acabando, mas tem um outro começando. Basta termos olhos pra ver e estarmos atentos aos sinais deste futuro. Ele não está pronto, nem está escrito nas estrelas. O que ele vai ser depende de cada um de nós.
Bora construí-lo?



sábado, 21 de janeiro de 2017

Quem são os bobos?



"Sob os auspícios da generosidade, gostaria de chamar ao palco um grande amigo..." (Paulinho Malaguti Pauleira, chamando Lenine para dar uma canja no seu show, em março de 2011, no Teatro Baden Powell, em Copacabana )


A generosidade não é uma marca do nosso tempo. Quase todos os modelos de negócios estão baseados no "princípio" de que só a competição move a economia, os seres humanos e o mundo. Sem ela estagnaríamos. Uma empresa se acomodaria e acabaria ultrapassada pela concorrente; os seres humanos não se aprimorariam e o mundo não se desenvolveria. A generosidade pode até ser considerada politicamente correta, mas a visão que predomina, sobretudo nos meios empresariais, é de que ela é coisa de ingênuos. E de bobos.


Será?
Já nos esquecemos, mas quando as ações do Google foram lançadas na bolsa, em 19 de agosto de 2004, os comentários de todos os analistas econômicos dos principais jornais dos Estados Unidos eram de que a empresa precisava arranjar um outro modelo de negócio ou ia falir em menos de três anos. Se insistisse em prestar todos os seus serviços de graça ela não ia muito longe. Treze anos depois a empresa vale mais de U$ 500 bilhões e não se ouve mais este tipo de comentário... 

Da mesma forma, quando a Wikipedia foi lançada, ninguém ousaria pensar que esta enciclopédia, onde todos os colaboradores trabalham de graça, desbancaria a secular Enciclopédia Britânica e se tornaria uma referência mundial.


Quando a empresa americana Celera Genomics Corporation foi fundada, em 1998, com o objetivo declarado de sequenciar e patentear o genoma humano, ninguém teve dúvidas de que ela ia conseguir. O lançamento, um pouco antes, de um consórcio mundial reunindo milhares de pesquisadores de todo o mundo (inclusive do Brasil), com o mesmo objetivo, mereceu pouquíssimo destaque na mídia. Ninguém acreditava que um bando de pesquisadores, trabalhando de forma colaborativa e sem nenhuma recompensa a não ser seus salários, ia conseguir superar a eficiência de uma grande corporação privada, que prometia a seus funcionários participação nos enormes lucros advindos do patenteamento do genoma humano. 

Foi muito divertido ver a cara de incredulidade dos jornalistas econômicos quando, em 14 de abril de 2003, o consórcio internacional dos bobos e ingênuos anunciou a conclusão do sequenciamento do genoma humano e o tornou patrimônio da humanidade, para ser usado gratuitamente por todos. A rede mundial de pesquisadores tinha vencido a poderosa empresa americana e seus competitivos profissionais...

Podia ser só uma bela história onde os "mais fracos" vencem os ricos e poderosos, mas é muito mais do que isto. A sociedade do conhecimento em rede não vai acabar com a competição. Ela continuará existindo entre as empresas e entre os seres humanos, promovendo o desenvolvimento tanto da sociedade quanto de cada um de nós. Mas esta nova era abre a oportunidade para novas formas de se criar valor. Não é só a competição que cria valor, mas também a confiança, o compartilhamento e a generosidade. E isto funciona tanto no tablado de um teatro, quanto no palco da vida e do mundo dos negócios...

Pense nisso, pois quem ainda não entendeu esta nova realidade é que vai fazer o papel de bobo...





domingo, 15 de janeiro de 2017

A náusea e as flores

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
...
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

A flor e a náusea - Carlos Drummond de Andrade

A vida já me ensinou que ninguém muda por mudar. Todo processo de mudança é doloroso, envolve perdas e um passo rumo ao desconhecido. As pessoas e os países só mudam quando não tem alternativas. Estão enojadas e/ou entediadas e já entenderam que é mudar ou morrer... Aí nosso instinto de sobrevivência se sobrepõe ao medo da mudança e nós resolvemos fazer algo para mudar nossas vidas. 

O país anda triste e sem esperança. Nestas horas convém olhar para os artistas. Alguns deles têm o dom de ver antes o novo que está vindo. 

Este mês assisti ao filme Elis e ao espetáculo Trá-lá-lá, que conta a vida e canta as músicas de Lamartine Babo. Além do filme e da peça serem ótimas, me chamaram a atenção dois artistas extraordinários: Andréia Horta, que interpretou Elis e Daniel Haidar, que atua na peça.

O trabalho de Andréia é tão bom que ela ganhou o Kikito de Ouro como melhor atriz por seu desempenho no filme, mas quem mais me surpreendeu foi Daniel. Ele tem apenas 17 anos e é um ator completo: interpreta magnificamente (com leveza e uma tremenda presença e domínio do palco), canta, toca, dança e sapateia com maestria! Não me lembro de nenhum ator brasileiro que reúna todas estas qualidades. E ele tem apenas 17 anos... 

Não deixem de ir ver o filme e a peça, mas sobretudo guardem o nome destes dois artistas extraordinários: Andréia Horta e Daniel Haidar. No meio deste momento triste por que passamos eles são flores que furaram o asfalto, o tédio e a mesmice para anunciar que a arte brasileira está viva e criando novos talentos.






Façam completo silêncio. 
Paralisem os negócios,
Desliguem seus celulares e respirem fundo:
garanto que duas flores nasceram.







Corram para assisti-los!

Garanto que vocês não vão se arrepender...