sábado, 23 de dezembro de 2017

O que importa não se mede com fita métrica

"Você não é de bugre?.

Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas.
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os araticuns maduros."  Manoel de Barros



Cresci com uma enorme vocação para ir contra o senso comum, as proibições, e ser do contra... Sempre achei que a poesia do Drummond que diz "quando nasci, um anjo torto me disse: vai Carlos, ser gauche na vida..." se aplicava perfeitamente a mim! Devo ter um anjo ou uma Iemanjá torta me dizendo sempre para seguir uns caminhos diferentes do que a maioria segue...
Quando todos pensavam em fazer vestibular pra engenharia, direito ou medicina, eu queria fazer matemática ou história. Trabalhei cinco anos no mercado financeiro e quando todos diziam para aproveitar, resolvi jogar tudo para o alto e ir fazer um doutorado na França.
Esta vocação de ser "gauche" sempre me fez pensar nas proibições como uma imposição externa necessariamente ruim, com o único propósito de nos limitar, controlar e diminuir.. Sempre achei que o homem só pudesse se desenvolver livre das amarras legais e morais. Hoje, graças a alguns amigos psicólogos e psicanalistas, acho que sem as proibições não teríamos nossa consciência de humanos. Não somos movidos apenas pelos instintos, como os animais. Ao nos controlarmos e nos impormos certos limites, ao suspender provisoriamente a satisfação dos desejos imediatos conseguimos ultrapassar a condição de animais e nos desenvolver como seres humanos. Ao mesmo tempo que estes limites contém, organizam, definem, eles também nos lançam para o ilimitado, nos fazem querer ultrapassar as barreiras, buscar ir mais além.

Mas se nossa vida fosse completamente regulada por proibições e leis perderíamos a espontaneidade e a alegria de viver. O excesso e a transgressão é que fazem que não possamos ser reduzidos a autômatos, a seres-objetos, sem vida. Tem um francês (Georges Bataille) que diz que o erotismo é a fusão dos corpos, a supressão dos limites, a suspensão do isolamento e da solidão. Mas não é somente a sexualidade que produz erotismo. O amor pode ser erótico (porque mesmo sem a fusão de corpos promove o encontro entre dois seres que buscam ir além de si mesmos); a arte e a poesia podem ser eróticas, na medida que promovem a transgressão das regras, a viagem pela imaginação. O que marca o erotismo, segundo o Bataille, é a relação do homem com a vida, é a possibilidade de vivermos a vida sem limites, mesmo que isto possa durar apenas alguns segundos, como num orgasmo, na satisfação de termos feito um trabalho bem feito ou na simples leitura de um poema.

Em resumo, talvez a grande contradição que vivemos em nosso processo de humanização é que precisamos de limites e regras para nos organizarmos, mas ao mesmo tempo precisamos suspender (mesmo que provisoriamente) estes limites. Precisamos exercer o excesso de vida que habita nossos corpos. Precisamos dar vazão à força e aos "vulcões" que nos habitam! Precisamos caminhar pelos desvios, por aqueles caminhos que nos farão ter surpresas e provar os araticuns maduros... E isto não é necessariamente contraditório com caminhar pelos caminhos já pavimentados, pelos lugares que já conhecemos e onde teremos menos surpresas. A escolha de um não anula a possibilidade de caminhar pelo outro.
Trata-se de um falso paradoxo.
Como também é falsamente paradoxal querermos enquadrar e rotular as pessoas, sem perceber que somos seres complexos. Eu, por exemplo, me considero um cara tímido e discreto, que (em geral) age calmamente, que gosta de ficar sozinho ou com pessoas muito próximas e curte o silêncio. Ao mesmo tempo, subo no banquinho pra falar quando vejo uma injustiça, me emociono, não suporto a rotina, e quero (quase sempre) mudar o status quo. Aos poucos vou entendendo que não sou uma coisa OU outra, mas as duas coisas. E que isto não é necessariamente contraditório ou antagônico mas, ao contrario, pode ser sinérgico. Os momentos de silêncio e reflexão me ajudam a perceber melhor o que são e pensam as pessoas e me ajudam a saber o que dizer em cima do banquinho... E tentar transformar a realidade me traz novas questões para pensar...
O século XX, a sociedade industrial e o modo de pensar dual e cartesiano nos acostumaram com a falsa ideia de que existe uma contradição entre teoria e prática, analisar e fazer, pensar e sentir. Este mundo industrial e este modo de pensar binário estão ficando pra trás. Os araticuns estão maduros. É hora de provar uma nova forma de viver, mais sistêmica, onde não tenhamos medo de afirmar a complexidade e a transitoriedade da vida e das relações humanas.
"Me procurei a vida toda e não me achei. Pelo que, fui salvo" (Manoel de Barros)

Estou convencido que só podemos dar nosso depoimento ao mundo através do exemplo concreto. Porque nenhuma mudança se dá só no discurso, ela exige um contato real, de experiência vivida a partir da emoção mais profunda. Só conseguimos sensibilizar os outros a partir dessa verdade vivida. E o amor, o dia a dia das organizações e a vida são feita de sucessos, alegrias, mas também de dores, cicatrizes que nos marcam profundamente, de coisas que a gente não controla, de um mistério que envolve a vida e que nem sempre pode ser desvendado. Frequentemente queremos apagar o que vivemos para começar de novo. Ano novo, vida nova!

Doce ilusão! A arte de viver talvez seja aprender a conviver com nossas dores. Ao invés de tentar negar ou colocar nossos problemas para baixo do tapete, deveríamos tentar incorporar, absorver, assumir como nossa esta experiência. Todos nós achamos que vivemos para chegar no paraíso. Ou, pelo menos, para chegar numa vida agradável e estável. Mas esta frase do Manuel de Barros nunca mais me saiu da cabeça, porque ela vai de encontro a esta visão: "Me procurei a vida inteira e não me achei. Pelo que fui salvo". Acho que o que Manuel de Barros está falando é da impermanência das coisas, do fato de que no momento que chegamos a algum lugar já estamos buscando outra coisa, já somos outra pessoa. Nunca voltamos ao mesmo lugar, às mesmas sensações. Nunca mais voltaremos a ser crianças. A sentir o que sentimos numa determinada situação. E isto não tem nada de ruim, ao contrário. É o sinal que estamos vivos, prontos para viver mais situações e emoções que podem ser tão ou mais intensas que aquelas que não queremos abandonar. E isto não significa que devemos esquecê-las. Mas incorporá-las. Conviver com elas.

Enfim, que neste momento de Natal e de fim de ano, onde todos fazem seus balanços de vida e se preparam para nascer de novo, nos mantenhamos na busca de nós mesmos. 

Se há uma "salvação", deve ser esta...



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

No intenso agora (e a construção do futuro...)

“Para ser grande, sê inteiro...
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes”.
Fernando Pessoa


No início de 1999 assisti a minissérie Chiquinha Gonzaga, de Lauro César Muniz. Ela foi uma mulher revolucionária, que no final do século XIX, quando as mulheres eram consideradas um cidadão de segunda classe que não podia nem trabalhar e nem votar, ousou fazer o que gostava (compor e viver de música) e amar intensa e verdadeiramente. Numa atitude que chocou a sociedade conservadora de sua época decidiu abandonar o marido que não amava para seguir seu coração. Mais tarde, aos 52 anos de idade, já consagrada, Chiquinha conheceu aquele que iria se tornar seu companheiro até o final da vida, o jovem português João Batista Gonzaga, de 16 anos. Numa das cenas que mais me marcaram na minissérie, Chiquinha fala para um namorado: “Quem foi amada como eu fui, não pode se contentar com as migalhas de amor que você quer me dar...



A poesia do Fernando Pessoa e esta frase da Chiquinha Gonzaga me vieram à cabeça depois de ver o filme “No intenso agora”, de João Moreira Salles. O filme recupera imagens históricas e de arquivo pessoais dos intensos acontecimentos da década de 1960: a revolta estudantil em maio de 1968 em Paris, a Primavera de Praga (a invasão soviética na Tchecoslováquia, em 1968) e a China maoísta de 1966 pelo olhar da sua mãe, que fez uma visita à China, na época.

O filme nos faz pensar sobre vários assuntos. Num trecho, por exemplo, João Moreira Salles analisa como os mortos são utilizados politicamente. O foco é 1968, e são exibidas imagens de enterros em Praga, Paris e Rio de Janeiro, cada um com seu mártir. Em Praga, um estudante de 20 anos se suicidou colocando fogo no próprio corpo para protestar contra a invasão soviética e a apatia do povo tcheco. Seu enterro foi a maior manifestação já ocorrida naquele país e as pessoas, além de protestar, estavam visivelmente emocionadas, lamentando sua morte. Já no enterro de Edson Luís, no Rio e de um operário, em Paris, só houve protesto. A morte foi um estopim para o protesto. Ninguém chorou...

Mas a reflexão mais importante é a que aparece no título do filme: qual o papel destes momentos intensos na transformação das pessoas e da sociedade? João Moreira Salles sugere que a paixão e a intensidade nas quais estes momentos foram vividos por quem deles participou são só uma centelha sem consequências.

De fato, meses depois destes acontecimentos eletrizantes a vida voltou ao seu normal. A “ordem” foi restabelecida no Rio, Praga e Paris e todos voltaram a viver suas vidas exatamente como antes mesmo que, para alguns, esta volta à “normalidade” tenha se revelado impossível. O diretor faz uma referência toda especial a vários personagens chave das revoltas de 68 que se suicidaram logo depois. Ele sugere, provavelmente numa busca de entender o suicídio de sua própria mãe (homenageada no filme), que a miséria de uma vida cotidiana e banal se tornou insuportável para quem viveu momentos tão intensos e arrebatadores.

O filme é um documentário político, mas como escreve Pablo Ortellado, ele também sugere que o contraste entre essas explosões revolucionárias e a vida “normal” que segue depois é o mesmo entre as paixões arrebatadoras (e fugazes) e o amor banal, morno e cotidiano. E que nosso desafio “é aprender a viver na pequena miséria cotidiana, tanto aquela do amor, quanto aquela da política”.

Mas, continua Pablo, “talvez devamos pensar inversamente: que a memória da paixão é o motor que alimenta e orienta o amor cotidiano e, por analogia, que os bonitos surtos de rebelião oferecem a direção para o futuro, mesmo depois que os acontecimentos ficaram distantes no tempo. Maio de 1968, na França, assim como junho de 2013, no Brasil, permanecem eventos insondáveis, inexplicáveis. Lá, o período ainda é chamado de "os acontecimentos" e, aqui, simplesmente de "as manifestações". Ninguém sabe dizer ao certo por que aconteceram, nem consegue reduzir seu significado a uma explicação simples. Mas foram dias tão intensos e tão carregados de esperança e sentido que, passados anos, sua luz consegue ainda iluminar o futuro."

Nós escutamos o barulho do carvalho que cai, mas não escutamos o barulho da floresta que cresce (Jean-Yves Leloup)

Hoje fala-se muito de nossa aparente apatia e desinteresse, mas o mais importante é aquilo que não se ouve ou vê; é preciso prestar atenção às sementes de consciência que foram plantadas em junho de 2013 e nas manifestações que se seguiram.  Assim como aquela(e) que amou intensa e verdadeiramente não suportaria viver um amor burocrático e formal, uma sociedade que experimentou o gosto da democracia participativa não tolerará o fim da Lava Jato e o retorno dos mesmos políticos em 2018.


A esperança não vai morrer. Junho de 2013 ainda vai iluminar o nosso futuro e a construção de uma nova sociedade, mais democrática e em rede. 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A história é um carro alegre que atropela indiferente todo aquele que a negue

" Mas é você que ama o passado e que não vê 
que o novo sempre vem" (Como nossos pais - Belchior)

Tu vens, tu vens, eu já escuto teus sinais... (Anunciação - Alceu Valença)



Em 5 de outubro de 1789 o povo francês cercou o Palácio de Versailles protestando pela escassez e o alto preço do pão. Diz-se que vendo a cena, a rainha Maria Antonieta teria dito "se eles não tem pão, que comam brioche", ignorando solenemente a multidão. No dia seguinte, ela e o rei foram conduzidos pelo povo, à força, até Paris e quatro anos depois foi solenemente guilhotinada...

A Kodak foi criada em 1880 e desde então foi a empresa líder no setor fotográfico e a criadora da foto digital, mas se recusou a mudar o seu modelo de negócios, focado na venda de películas fotográficas. Fechada em seu palácio de líder de mercado, não percebeu a mudança dos ventos trazida pelo mercado digital e solenemente pediu falência em 2012, abandonando o mercado que ela liderou por mais de um século...

Em junho de 2013 o Congresso Nacional foi cercado pelo povo brasileiro exigindo o fim da corrupção e serviços públicos de qualidade. Depois das manifestações a Lava Jato conseguiu prender, pela primeira vez na nossa história, empreiteiros, banqueiros e políticos corruptos e três anos depois promoveu o impeachment da presidente da república. Fechados em seus palácios brasilienses, nossos políticos parecem não perceber, no entanto, a tsunami que se prepara. Aécio Neves destitui o presidente do PSDB para tentar fazer o partido apoiar Temer; Lula e o PT resolvem "perdoar os golpistas" e anunciam alianças com o PMDB de Renan. Nossos velhos políticos resolveram ignorar a voz das ruas e tentar a todo custo barrar a Lava Jato para tentarem se preservar no Olimpo do poder...







Quando o velho resiste ao novo ele é eliminado

"A história é um carro alegre, cheia de um povo contente
que atropela indiferente, todo aquele que a negue" 
(Cancion por la unidad latino americana - Pablo Milanes)

Reparem a diferença entre o que aconteceu com a nobreza britânica e francesa. A nobreza francesa resistiu a abrir mão de seus privilégios e tentou impedir a revolução industrial. Ela tentou impedir o bonde da história e foi, literalmente, atropelada. Já a nobreza inglesa resolver aderir ao novo e apoiou aqueles que queriam fazer a revolução industrial. O resultado foi que ela conseguiu sobreviver e a Rainha está aí até hoje...

A história está cheia de exemplos que demonstram um claro padrão: o velho normalmente tenta impedir o novo de eclodir. Esta resistência pode funcionar até um certo ponto. A partir de um determinado momento, ou o velho busca conviver com o novo ou ele é simplesmente eliminado. 

A nobreza francesa e a Kodak resolveram ignorar os sinais e foram atropelados pela história. Os políticos e partidos brasileiros que continuarem a se colocar contra a sociedade e a Lava Jato serão dizimados nas próximas eleições. 

Quem sobreviver, verá...





sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Economia "invisível" ganha corpo no Brasil

"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro de poemas, o cheiro que tinha um dia o próprio vento"...
(Mario Quintana)


Quando surgiram, no final da primeira década do século XXI, o UBER (2009), o Airbnb (2008) e o Whatsapp (2009) eram só três dos milhões de aplicativos que foram criados. No Brasil de hoje (2017), o UBER tem 13 milhões de usuários, o Airbnb tem 1 milhão de usuários e o Whatsapp tem 120 milhões de usuários! Repito, só no Brasil. 

Estudo que acaba de ser publicado pela FIPE (USP), mostra que o Airbnb movimenta a economia brasileira três vezes mais que a rede hoteleira. Para o professor Eduardo Haddad, professor titular do departamento de economia da FEA-USP, "A análise indicou que a operação do Airbnb tem desdobramentos bastante interessantes em diversos setores. É um impacto amplo e ao mesmo tempo razoavelmente localizado na cidade em que o turista está". Só no Rio de Janeiro foram 360.000 hóspedes, mas cada dolar gasto por estes hóspedes movimentaram $4,59 na economia da cidade e acrescentaram R$ 114 milhões à renda das famílias na cidade, gerando 25.787 empregos. 


Segundo o estudo, ao longo de 2016 foram mais de 1 milhão de hóspedes em todo o Brasil, que foram recebidos por quase 90 mil anfitriões que tiveram um ganho anual de R$ 6.070,00. O resultado foi que esta movimentação gerou 788,2 milhões de reais a mais no PIB brasileiro do que se tivessem se hospedado em hotéis ou pousadas, segundo a Fipe. 

O número de hóspedes que usam o Airbnb, quando comparados à rede hoteleira, ainda é baixo. Os hóspedes do Airbnb são apenas 2% do número de hóspedes totais no Brasil, mas seu impacto econômico já é enorme. 

Com o UBER temos o mesmo fenômeno. Em São Paulo e Rio de Janeiro o número de motoristas de UBER já ultrapassou o número de motoristas de táxis. Estima-se que em São Paulo já existam 50.000 motoristas de UBER contra 28.000 táxis

A economia "invisível" parece que deixou de ser marginal e ganhou corpo e relevância. Ela já é responsável por gerar trabalho e renda de forma significativa e a tendência é que ela ganhe cada vez mais espaço. Está mais do que na hora de repensarmos nossa forma de gerenciar empresas, organizações e o Estado. Quem não mudar sua forma de pensar e agir para se adaptar aos novos tempos vai desaparecer. Como nos lembra o Prof. Yves Doz, do INSEAD (França), muitas empresas vão falir não por que fizeram coisas erradas, mas por terem continuado a fazer as "coisas certas" por muito tempo...
 "Most companies die not because they do the wrong things but because they keep doing the right things too long!”




segunda-feira, 18 de setembro de 2017

E se os únicos fiscais fossem os cidadãos?

"Vem vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer" (Pra não dizer que não falei de flores, Geraldo Vandré)


Neste fim de semana, 150 fiscais da Vigilância Sanitária da Prefeitura do Rio de Janeiro recolheram 160 quilos de alimentos no stand da chef Robert Sudbrack no Rock in Rio. Os alimentos estavam em perfeito estado e dentro do prazo de validade, mas faltava um carimbo que é exigido para se vender um alimento. O detalhe é que nenhum dos alimentos seria vendido, mas eram ingredientes para os sanduíches: eram queijos e linguiças feitos por produtores artesanais e pequenos produtores pernambucanos. 

A prefeitura do Rio tem 40 fiscais para fiscalizar 9 mil ônibus, 33 mil taxis e 4 mil vans. Durante a última campanha eleitoral para prefeito três candidatos (Molon, Osório e Freixo) tinham a mesma proposta para lidar com este problema: contratar mais fiscais. Perguntaram a minha opinião e disse que minha única dúvida era o que fazer com os 40 fiscais...

Quem tem que fiscalizar os ônibus, táxis, vans e o transporte escolar? Quem tem que fiscalizar os restaurantes da cidade? Os seis milhões de cidadãos da cidade do Rio de Janeiro, com seus celulares. O ônibus não parou no ponto, está correndo muito, o táxi está com barata, o restaurante está vendendo comida estragada? Entra na cozinha (a lei de defesa do consumidor franqueia a visita da cozinha para todos os consumidores), tira uma foto, anota a placa, denuncia nas redes e envia para a prefeitura! 

Pra quê fiscais?

Hoje a função deles é muito clara: achacar o empreendedor com a desculpa que está "protegendo os consumidores". Alguns talvez estejam e devem ser bem intencionados. A maioria, no entanto, procura encontrar qualquer detalhe para multar. A ideia é "criar dificuldade para vender facilidade"... Isto encarece o produto final para o consumidor sem garantia nenhuma de que o serviço será de qualidade. Só o consumidor/cidadão pode garantir a qualidade do serviço/produto oferecido dando sua avaliação e a tornando pública, como acontece no Uber e no AirBnb.




Eu acabaria com TODOS os fiscais. A única exceção seriam os auditores fiscais, que investigam crimes financeiros, mais difíceis e complexos e que demandam uma investigação especializada, inacessível para o cidadão comum. Os fiscais que lidam com produtos e serviços ofertados aos consumidores eu simplesmente acabaria com eles. São desnecessários. Inclusive estes da Vigilância Sanitária que atacaram Roberta Sudbrack no Rock in Rio. 

Quem tem que fiscalizar são os cidadãos!

Muitos podem alegar que as reclamações dos consumidores "não dão em nada". Em muitas prefeituras é verdade isso. A prefeitura simplesmente não está aparelhada para lidar com milhares de reclamações de seus cidadãos. Não tem processos adequados porque tem uma estrutura hierárquica para lidar com uma sociedade que cada vez mais se estrutura em rede, de forma descentralizada. De fato, com as estruturas atuais das prefeituras ela não consegue atender a seus cidadãos adequadamente. Mas o modelo atual já não dá conta. É simplesmente inviável imaginar que a prefeitura vai conseguir contratar milhares (milhões?) de fiscais para lidar com o controle de taxis, ônibus, restaurantes, viadutos, postes, marquises, hospitais, escolas, esgoto, água.... Quem tem que fiscalizar todos estes serviços são os cidadãos e enquanto a prefeitura não se estrutura de outra forma, a denúncia dos maus serviços nas redes já vai alertar os cidadãos e tirar do mercado os maus prestadores de serviço. O restaurante está vendendo comida estragada? O motorista de taxi ou do Uber não é bom? Denuncie nas redes, avalie ele com uma estrelinha e ele estará fora do mercado em pouco tempo. 

Tá na hora de assumirmos em nossas próprias mãos o nosso destino. Os cidadãos organizados em rede não podem fazer tudo, mas podem melhorar a vida nas cidades. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.  


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A nova revolução francesa

Durante mais de dois séculos os franceses fizeram a direita e a esquerda se revezar no poder. Este ano eles viraram esta página da sua história. Pela primeira vez na história da República Francesa a esquerda E a direita foram fragorosamente derrotadas nas urnas.



Foi uma tsunami.

A direita sofreu a maior derrota eleitoral da sua história e deverá ter apenas 70 deputados. A extrema direita (Front Nacional, de Marine Le Pen) deverá ter apenas 10 deputados.
Já a esquerda foi dizimada. O PS (partido que estava no poder) teve menos de 10% dos votos e não deverá fazer nem 40 deputados. A "nova esquerda", a France Insoumise teve menos votos que o Front Nacional e mesmo aliada ao PCF (Partido Comunista Francês) fará menos de 15 deputados...
O grupo político vencedor foi France en Marche, do presidente Macron, que rejeita explicitamente qualquer enquadramento de "direita" ou "esquerda". Ele deverá ter maioria absoluta no parlamento, com mais de 400 deputados, sendo que a maioria deles nunca tinha participado antes da política.
É uma revolução que deixa o status quo político, mediático e intelectual de cabelo em pé.
Foi ridículo ver os políticos dos partidos de direita e de esquerda (inclusive os da "nova" esquerda, como a France Insoumise - o PSOL francês) tentando justificar sua derrota acachapante. Só conseguiram repetir os chavões e blá-blá-blá de sempre, que cansou os eleitores.
Já os jornalistas e comentaristas políticos estão completamente desorientados. Sem saber como explicar esta enorme demonstração de insatisfação com a política tradicional, se limitam a repetir o óbvio: os franceses estão de saco cheio dos políticos e da política. E justificam esta afirmação com a taxa recorde de abstenção desta eleição: 51,2% dos franceses simplesmente não apareceram para votar!
Por fim, os acadêmicos. Apesar de estarem desorientados, como os jornalistas, eles não podem dar o braço a torcer e dizer, simplesmente, que não estão entendendo nada. Preferem, do alto da sua arrogância, dizer que o povo francês está "flertando com o caos", "que esta rejeição da política está abrindo as portas para a extrema direita" ou ainda, "que a França en Marche é um projeto neo liberal sem dizer o nome". Em resumo, continuam tentando explicar a realidade com as suas velhas categorias e conceitos baseados numa visão de mundo que só consegue enxergar dois posições: a direita e a esquerda.
Minha percepção é completamente diferente. Os franceses não estão "cansados da política". Eles estão cansados DESTA política, velha, tradicional e ultrapassada. E acham que o parlamento nao representa mais a sociedade. Daí esta taxa de abstenção recorde (na França a eleição não é obrigatória). Não estamos vivendo "o fim do mundo", mas o fim de UM determinado mundo...
O resultado das eleições francesas é mais um sinal evidente de uma revolução em curso: o advento da sociedade do conhecimento, em rede e o fim da hegemonia do pensamento cartesiano e dual.
Do meu ponto de vista, o pensamento binário não consegue mais dar conta da diversidade e complexidade da vida política, econômica e social. Basta pensar em conceitos diversos como família, sexualidade ou economia e politica para se dar conta de que a era do pensamento binário acabou.
Uma família dos séculos XIX e XX tinha uma estrutura bem conhecida: pai, mãe, tios, avós... Olhe à sua volta hoje. Pessoas que se casam várias vezes, que não se casam e moram juntas, ou vivem separados, ou nunca se casam... Dentro da lógica cartesiana isto é uma verdadeira "zona". Dentro do pensamento complexo isto é só a expressão da variedade humana.
A sexualidade do século XXI não tem absolutamente NADA a ver com a sexualidade dos séculos XIX e XX. A mulher do século XXI é outra mulher. O homem também. E apareceram várias outras categorias que não se sentem representadas por esta classificação (homem-mulher). Mais uma vez, dentro do pensamento binário isto parece uma "bagunça" ou o "fim do mundo". Dentro da lógica complexa é apenas uma expressão da diversidade humana.
Na economia e na política, que mudam menos rápido que os costumes e práticas humanas, o esgotamento do pensamento binário é cada vez mais evidente. Existe uma nova economia, intensiva em tecnologia e conhecimento, que está superando a velha economia baseada em mão de obra e combustíveis fósseis. E na política é cada vez mais claro que as pessoas estão cansadas desta velha divisão direita X esquerda e desejam uma nova política, mesmo que ainda não saibam exatamente qual.
As manifestações de junho de 2013 e pelo impeachment de Dilma, no Brasil, e a eleição francesa são sinais deste novo tempo que surge. Claro que o novo ainda está sendo construído. Ele ainda é pouco claro, contém velhos traços do passado. O movimento de Macron não é o "novo que queremos". Ele é cheio de imperfeições e vícios, naturais em todo processo de transformação. Podemos nos envolver neste processo ou ficar de fora, observando ou criticando. Ficar de fora observando é lavar as mãos e deixar que o novo mundo seja construído pelos outros. Ficar de fora apontando seus defeitos é uma atitude arrogante e inútil. Arrogante porque pressupõe que quem critica sabe exatamente tudo o que deve ser feito. E inútil, porque o futuro não está escrito nas estrelas, mas é construído no dia a dia dos embates diários que temos na vida.
Bora construir o novo mundo e o Brasil do século XXI?

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Quem quer reviver a sua juventude não constrói nada de novo. E fica velho...

Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”. (Heráclito)

Minha adolescência no Colégio São Vicente de Paulo foi inesquecível. Eram os anos 70, de ditadura e muita repressão do lado de fora, mas de intensa atividade cultural no colégio. Tínhamos um grêmio, assistíamos filmes proibidos, discutíamos como construir a democracia no Brasil, namorávamos, nos divertíamos. Foram anos dourados... Já adulto, meu sonho era voltar ao colégio para dar aulas lá. Fui conversar com o Pe. Almeida, que era o diretor quando eu fui estudante. Falei do meu sonho e ele, sabiamente, me disse: “Marcos, o seu São Vicente não existe mais. E você querer reencontrar você e seus colegas nos alunos atuais só vai aumentar a sua nostalgia e fazer de você um mau professor. Não se vive duas vezes. Viva o seu tempo”...

Ontem teve uma manifestação em Copacabana com a presença de Caetano, Mílton e artistas globais. Vendo a linha do tempo de alguns amigos que lá estiveram, identifiquei claramente o mesmo sentimento: todos disseram que ontem reviveram “seus melhores anos de juventude”. E todos têm o mesmo desejo: reviver a manifestação dos 100 mil e “barrar a reformas”, “derrubar o governo golpista”, “fortalecer os sindicatos”, “diretas já” ... Em resumo: querem voltar para a sua juventude perdida nos anos 60, 70, 80...

O Pe Almeida tinha razão. Ser jovem não é tentar viver hoje as mesmas experiências de quando você tinha 18 anos. Você não é mais o mesmo, o contexto e as pessoas à sua volta também não. Ser jovem é viver intensamente o SEU TEMPO.

A disputa hoje, no Brasil, é entre aqueles que querem a manutenção de um status quo e/ou a volta ao passado e aqueles que querem colocar o Brasil no século XXI.

As manifestações de junho de 2013, pelo impeachment e em defesa da Lava Jato e a própria operação Lava Jato deixaram muito claro que este modelo de República é insustentável. Está velho e sem condições de continuar. Temer, lula, Dilma, Aécio, Cunha, Renan, Sarney são só o passado tentando impedir o novo de eclodir.

E aqueles que já foram porta vozes da esperança e de futuro ficaram velhos. Não pela idade, mas pelas ideias. Hoje eles se limitam a cultivar a volta ao passado, aos que nos colocaram nesta situação. Como nos lembra o Claudio Manoel Dos Santosl, “Foram anos de investigação do maior escândalo de corrupção da história. Estatais implodidas, ladroagem hiperbólica, a maior massa de desempregados jamais vista, centenas de milhares de falências e, durante esse tempo todo, durante tudo isso, não ouvimos um trinado do Caetano, um corinho da ala PSOL do PROJAC, nenhuma mobilização dessa galera, nada de nada...”


Esta galera hoje virou saudosista. Eles e Temer querem barrar a Lava Jato para ela não pegar o seu líder messiânico. Estão prisioneiros da sua juventude perdida. Se recusam a viver o nosso tempo.

Uma pena. A história não costuma perdoar quem se aferra ao passado.

“A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue”...